segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O TERROR DE ABRIR OS OLHOS...

As produções de terror e suspense que chegam aos cinemas brasileiros são, normalmente, produzidas em Hollywood, onde fórmulas são repetidas à exaustão visando apenas o lucro rápido. Apercebendo-se da potencialidade da linguagem oriental – menos filtrada, mais negra, onírica e, ao mesmo tempo, mais relacionada com o quotidiano (a paisagem dos subúrbios, telefones, torneiras, cabelos e televisões tornaram-se verdadeiros monstros) –, o cinema americano recorreu à máxima do costume: se não os podes vencer, faz versões. Ring, com Naomi Watts no papel principal, e Ju-on (The Grudge), com Sarah Michelle Gellar, foram assim traduzidos para os costumes ocidentais. O sucesso da fórmula foi tal que o cinema oriental começou, salvo algumas louváveis excepções (Takashii Mike, Fruit Chan e Chan-wook Park), a imitar-se a si mesmo.
E Hollywood a mastigá-lo e a cuspi-lo ao mesmo ritmo.

REFAZENDO PESADELOS

Nos estereótipos propagandeados pela indústria cultural, pouco se perde e menos ainda se cria. Feito montanha-russa, uma tendência costuma permanecer no topo. Em outro momento, o padrão seguido pode ser substituído por outro mais atrativo para as massas. A mania de modismo é a mola propulsora de boa parte da produção cinematográfica norte-americana. Motivada pelo lucro, Hollywood aposta nos chamados ''filões''. São aqueles filmes com argumentos repetitivos e fórmulas estéticas já prontas, baseadas no gosto médio do público. Há bem pouco tempo, os filmes catástrofes eram os arrasa-quarteirões de bilheteria. Twister, O Inferno de Dante, Vulcano, Impacto Profundo, Armageddon e O Dia Depois de Amanhã são alguns exemplos. Depois, as grandes produtoras passaram a investir em uma fonte que ainda gera lucros: a adaptação de heróis dos quadrinhos para as telas (Homem Aranha, Demolidor, Hulk, Batman e Sin City). Agora é a vez das refilmagens. Ou melhor, remakes de filmes asiáticos. Mais especificamente, produções japonesas de terror.''Os filmes americanos de terror já estavam muito saturados.

Há um sensacionalismo grande em cima do susto apenas. Já os orientais trabalham um horror mais cotidiano. Por isso, a tensão psicológica é mais forte. "O medo está em toda parte'', comenta Sandra Oliveira, 28, estudante de Ciências Sociais e redatora de crítica de filmes do portal Cinema Com Rapadura (http://www.cinemacomrapadura.com.br/). Com roteiros criativos e boa aceitação de público, os filmes de terror orientais chamaram atenção dos grandes estúdios norte-americanos, que aos poucos começaram a produzir suas versões.O primeiro rebento da nova onda foi O Chamado, de Gore Verbinski, refilmagem do bem-sucedido Ringu, do japonês Hideo Nakata. Em ambos os filmes, o roteiro narra a história de uma jornalista que decide investigar a misteriosa morte de sua sobrinha. O caso está relacionado com um estranho vídeo, que faz com que todas as pessoas que o assistam morram exatamente sete dias depois. Intrigada com a história, ela analisa o conteúdo da fita e corre contra o tempo para impedir que a profecia se realize. Nos Estados Unidos, O Chamado conseguiu atingir a marca dos 250 milhões de dólares em lucros de bilheteria. Com os bolsos cheios, a produtora Dreamworks investiu na seqüência O Chamado 2, em cartaz nos cinemas. A direção ficou a cargo de Hideo Nakata, responsável pelos três ''Ringus'' originais japoneses.O colecionador de filmes e especialista em informática, Leonardo Gadelha, 28, gostou mais da versão americana de Ringu. ''Há uma diferença de produção. Os americanos investem mais. Os efeitos ajudam a marcar época, como foi o caso de Matrix. Os Estados Unidos filmam como se fosse um espetáculo e as cenas são mais dinâmicas. Já os filmes japoneses priorizam a interpretação, o olhar dos atores'', argumenta.
Outros espectadores torcem o nariz quando o assunto é remake. É o caso de Jurandir Filho, 23, diretor-geral do site Cinema com Rapadura. Ele observa que, nos filmes americanos, o medo acaba se transformando em susto. ''Susto é aquela técnica usada para surpreender. Por exemplo, a atriz vai andando e do nada aparece alguém. É uma sensação involuntária. Com o medo, você sente calafrios, fica com dor de barriga, não quer olhar para a tela. Ao sair do cinema, você fica impressionado, ansioso, com cenas na cabeça'', explica. Refilmagem do japonês Ju-On, O Grito não teve tanta repercussão de público quanto O Chamado. No filme, uma estudante precisa desvendar uma estranha maldição que domina a casa onde mora em Tóquio. Uma das curiosidades peculiares de O Grito é que o próprio diretor e roteirista de Ju-On, Takashi Shimizu, dirigiu a refilmagem a partir de um roteiro escrito por outra pessoa (Stephen Susco) inspirado no filme japonês. A produção acabou massacrada pela crítica por se distanciar do original. ''O remake acaba tirando um pouco a originalidade, por causa das exigências comerciais dos estúdios. Não há aquela preocupação com a profundidade da história, figurino, cenários, música. Isso tira o verdadeiro clima de terror japonês. Muitas vezes, um filme americano bastante clichê, chatinho e sem arte nenhuma, consegue ser líder de bilheteria'', acrescenta Jurandir. Além do suspense psicológico, os filmes de terror orientais são caracterizados pelas técnicas que acentuam o surrealismo e o tom macabro, isento de efeitos visuais avançados. ''Os orientais são menos refinados nos efeitos. E o medo é melhor garantido quando a tensão vem do ator. Os efeitos dão impactos, mas passam'', observa Sandra, que aponta a produção de Hong-Kong, The Eye (que já cedeu os direitos autorais para o ator Tom Cruise produzir uma refilmagem), como exemplo de bom filme de terror. Dirigido pelos irmãos gêmeos Chun Oxide Pang e Danny Pang, o filme conta a história de uma jovem cega que, para recuperar a visão, sujeita-se a um transplante de córneas. Após a operação, ela começa a ser atormentada por imagens e sons sobrenaturais. ''Não há cenas feias nem chocantes, mas causa muita tensão''.

Remake tupiniquim: Até mesmo o cineasta brasileiro Walter Salles aderiu à moda dos remakes japoneses. Responsável por Central do Brasil e Diários de Motocicleta, Salles escolheu dirigir Dark Water, refilmagem do original de Hideo Nakata (intitulado Honogurai Mizu No Soko Kara), como estratégia para entrar no mercado do cinema falado em inglês, ao mesmo tempo em que não compromete a sensibilidade estética. No filme, uma mulher divorciada se muda com a filha para um apartamento durante a briga pela custódia da menina. Mas em vez de encontrarem paz, as duas são assombradas por um fantasma que amedronta os moradores do prédio. ''Acho que é, realmente, sobre solidão urbana mais do que qualquer outra coisa. Sobre os demônios internos que carregamos conosco. O roteiro era muito interessante. Era a relação mãe e filha, e isso me interessou por razões bem pessoais'', explicou o diretor em entrevista para o site Sci Fi Wire. Jennifer Connelly, John C. Reilly e Tim Roth são os atores que compõem o elenco. A produção fica a cargo de Roy Lee (O Chamado) e Bill Mechanic (Clube da Luta). O roteiro é assinado por Rafael Yglesias (A Morte e a Donzela). A trilha sonora foi composta por Angelo Badalamenti, freqüente colaborador de David Lynch. Apesar de todo o aparato técnico, Walter Salles encontra vários problemas de distribuição da película. Adiado pela terceira vez, o lançamento de Dark Water está marcado para julho deste ano. Um dos motivos do adiamento foi a péssima aceitação do público, durante exibições-testes.
P.S.: Matéria publicada no Jornal O Povo em 08/04/2005

TECNOMEDO:
Os filmes de terror japoneses não hesitam a atribuir alguma maldição à tecnologia. One Missed Call (que bem poderia ser traduzido como "Chamada Perdida") não contradiz a esta fórmula acima. Algumas universitárias começam a morrer, após terem recebido um misterioso telefonema no qual consta uma data e hora futuras, que vem a ser o exato momento no qual elas irão morrer. Do telefone celular da vítima, parte uma nova ligação, que conduz a um ciclo interminável de desgraças. A trama não é nova, tampouco original. "Ringu" explorou este tema, só que através de uma ultrapassada fita VHS e "Ju On: The Grudge" através da casa na qual quem entra, morre. Entretanto, pode-se ler uma mensagem nesta fixação nipônica pela tecnologia. O Japão é um dos maiores exportadores de produtos eletrônicos e eles mesmos tiveram de se adaptar a uma abrupta mudança em seus costumes na era pós-guerra. De fato, o mundo globalizado tornou-se completamente dependente da tecnologia, a tal ponto de que, se a internet deixasse de funcionar hoje, muitos serviços essenciais deixariam de funcionar. Talvez seja este o ponto focal de filmes como "Ringu" e, principalmente, de "One Missed Call", a subserviência da humanidade a algo que deveria ser um utensílio. Nós incorporamos tanto o discurso da necessidade que não conseguimos mais reconhecer o que é necessário e o que é acessório. Além disto, é tom geral nestes filmes de horror a inexorabilidade da morte. Não há como evitá-la e, no fim, por mais que torçamos pelo contrário, podemos antever que não há salvação para os protagonistas. Mas isto já é uma premissa lógica desde Aristóteles e é uma das únicas certezas que podemos ter neste mundo.
"Todo homem é mortal".



ALGUMAS DICAS SOBRE SUSTOS NIPÔNICOS:

FATAL FRAME: É o top do nosso "cunamãozometro"...destaque absoluto para as defuntas que caem do alto e voam com a boca aberta!!!

CLOCK TOWER: Razoável. Para quem gosta de Resident Evil, mas sem armas ou zumbis...

O GRITO-MANGÁ:Os desenhos até que chegam a agradar, mas a história poderia ter sido mais explorada. Meio carinha e deixa a desejar. Particularmente utilizada para assustar Emos.

1 comentários:

Anderson Criston disse...

Concordo com você, esse filmes americanos são puros glichês, eles (os americanos) adoram cenas com muitos sangue e seriais killer, já os nipônicos trabalham melhor a história e o verdadeiro suspense final